Leituras desprogramadas (2)

14/02/2018 10:57

Por Isa Maria Freire*

 

Nestas férias, resgatei da estante uns livros que me acompanham desde o final do século 20 e me auxiliaram a fundamentar uma visão de mundo pluralista e inclusiva. A Dança da Terra (1998) me acordou para o necessário envolvimento com o Planeta Azul, cantado por Caetano Veloso: mesmo de longe, ela está bem perto!

Elisabet Sahtouris fala de sistemas vivos e de uma nova visão da biologia, cuja vivência cultural é tão antiga quanto o nome da teoria moderna que a resgata: Gaia! Seu arquétipo é o da força renovadora da natureza, representada pela deusa da fertilidade. Foram os tempos da Grande Mãe da Natureza1. E tanto tempo, tanto tempo se passou, desde que a vida se instalou e evoluiu, que a gente nem se lembra mais que a Terra nos cuida e abriga, mas também precisa ser cuidada. Nesse sentido, como recomenda Rita Lee, “dance, dance, dance”, o amor à Terra, às pessoas, bichos e paisagens.

E para onde me levou esse movimento? De volta para Fritjof Capra, o cara d’O Tao da Física, num livro que tem como subtítulo “uma nova compreensão científica dos sistemas vivos” e traz, na capa, o título em português e inglês: A Teia da Vida – The Web of Life. Conforme o autor trata-se de uma síntese das concepções e ideias apresentadas em textos anteriores, realizada ao longo de dez anos de “amadurecimento” intelectual. Um novo paradigma que Capra chama de “ecologia profunda”. Tudo a ver com esse envolvimento profundo e amoroso a que A Dança da Terra nos convida. Ambos são livros do final do século 20, uma oferenda para os deuses do tempo, Cronos e Kayrós, o tempo eterno e o tempo do oportuno.

Mas a virtude do amor à Vida, que se desenvolve na dinâmica entre os dois titãs, deve ser cultivada, como as demais virtudes, pelo agir habitual, como já dizia Aristóteles. Talvez por isso minha leitura desprogramada tenha saltado dessa órbita filosófica para o fazer nosso de cada dia, o que implica, para mim, divagar e refletir (ou seria refletir e divagar?) sobre as ações de informação, especialmente as ações formativas. E essa trilha me levou a Educação e conhecimento, de Pedro Demo.

O livro relata resultados de projeto de pesquisa financiado pela CAPES e realizado por Demo na University of California em outubro de 1999. A discussão se desenvolve na ambiência da sociedade intensiva de conhecimento: “Dizemos intensiva porque conhecimento já não é apenas componente importante, mas decisivo, tendencialmente avassalador” (p.11). Quase 20 anos depois, podemos confirmar a relevância “avassaladora” do conhecimento na sociedade que, desde então, se organiza em redes virtuais de comunicação da informação. E, como digo, o conhecimento voa nas asas da informação.

Na quarta capa, onde geralmente se escreve sobre o livro, lê-se; “O sistema não teme o pobre que tem fome, porque, como regra, basta enganá-lo com cestas básicas e outras cantilenas da solidariedade. O sistema teme o pobre que sabe pensar, porque vai atrás de seus direitos”. Pedro Demo, publicado no ano 2000, o último do século passado. A atual “sociedade aprendente” já estava em curso.

Enfim, foram bem proveitosas essas leituras desprogramadas, mas “o tempo não para” (conforme o filósofo Cazuza), e as leituras programadas me chamam de volta para as reflexões sobre as ações de informação no Laboratório de Tecnologias Intelectuais – LTi. Uma porta aberta para uma relação de aprender a aprender entre docentes e discentes da graduação, nos cursos de Arquivologia e Biblioteconomia, e da pós-graduação em Ciência da Informaçãoda UFPB.

Agora, com sua licença, o prazer dessa reflexão me chama.

 

Referências

 

CAPRA, Fritjof. A teia da vida: Uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São Paulo: Pensamento: Cultrix, 1996.

DEMO, Pedro. Educação e conhecimento: relação necessária, insuficiente e controversa. 3. ed. Petrópolis: Vozes,2000.

SAHTOURIS, Elisabet. A dança da terra. Sistemas vivos em evolução: Uma nova visão da biologia. Rio de Janeiro: Record: Roda dos Tempos, 1998.

 

* Doutora em Ciência da Informação pela UFRJ. Professora no Departamento de Ciência da Informação da Universidade Federal da Paraíba. Coordenadora do Projeto LTi.

1 Nas asas do feminino. Disponível em: http://www.isafreire.pro.br/site/documentos/ensaios/Encontro%20Verde%20das%20Am%C3%A9ricas.pdf.

2 Dançar para não dançar. Conheça a letra (adoro!) e dance (desculpe o trocadilho rrrsss) com a música: https://www.letras.mus.br/rita-lee/79672/.