Diálogos para uma biblioteca pública e bibliotecários responsáveis

25/06/2020 17:42

Leonardo Marçal*

 

Victor Flusser em seu artigo “Uma Biblioteca Verdadeiramente Pública”, inicia reflexões acerca do processo de distanciamento entre alguns grupos sociais e a cultura. Afirma que há uma diferenciação clara entre o “povo” - generalidade da população que estão marginalizados do acesso a cultura, também chamados de “não-público” -, e o “público” - recorte específico que se caracteriza pelos que podem acessar a cultura (público potencial) e os que acessam propriamente (público efetivo).

Dá continuidade a reflexão traduzindo a inquietação de que para que uma biblioteca possa verdadeiramente ser chamada de pública, esta deve, necessariamente se voltar para o “não-público”. Esse desafio se expressa de modo bastante visceral ao considerar que o não-público não compreende, no sentido de não fazer qualquer sentido ou funcionalidade, a linha de interação, ou nos dizeres de Flusser, a “palavra” da cultura. Ademais, tampouco detém este mesmo não-publico possibilidades ou fatores condicionantes em seu favor para garantir a constituição de uma “cultura-palavra” que fizesse sentido para si, no âmbito desse possível diálogo.

Assim, começa a fazer cada vez mais sentido a proposição de que para ser verdadeiramente pública, uma biblioteca tem o dever de participar do processo de emersão da “palavra” do não-público. Somente assim pode fazer sentido ofertar uma resposta a aspiração fundamental em favor da igualdade - componente que por si mesmo é estruturante de qualquer política cultural dita libertadora.

A biblioteca deve, desta forma, buscar ofertar acesso crítico ao depósito da herança cultural de determinada coletividade, ou seja, favorecer a mediação cultural por meio de uma síntese dialética com o que ainda será criado, pois na relação com o não-público o material ainda terá que ser construído e o será em conjunto. É por isso que a biblioteca que assume tal papel não pode restringir apenas a cultura literária, mas assume o compromisso e vocação de tornar-se um centro de cultura e ferramenta estratégica de libertação da comunidade a qual pertence.

Todo esse campo de análise, dialoga com o pensamento de Marielle Barros de Moraes, no artigo “Responsabilidade Social Bibliotecária (RSB): o que significa em tempos de rupturas democráticas”. No referido artigo, Moraes aborda aspectos decorrentes de lutas que desencadearam a universalização das bibliotecas nas instituições de ensino do País, por meio da Lei 12.244/2010, e reflete sobre o papel da Responsabilidade Social do Bibliotecário neste contexto.

Reflete com acerto que a tal RSB implica no impulsionamento do acesso à informação de maneira livre e sem quaisquer óbices impostos pela sociedade, pela religião ou mesmo pelo Estado. Assumindo o bibliotecário papel de extrema relevância para a garantia deste cenário.

A autora identifica ainda que a RSB pode assumir três correntes de pensamento bastante características, a saber, a visão tradicional, a visão crítica e a visão neoconservadora.

A visão tradicional pode ser expressa pela ideia instrumentalista de que o profissional da Biblioteconomia deve focar suas atividades na simples e mera organização o acervo e materiais. A visão crítica, por outro lado, entende e enxerga o bibliotecário como incentivador de processos de mediação da informação, ou seja, sendo aquele que promove o deslocamento do eixo de organização documental para o cerne da difusão da informação.

O bibliotecário assume, nesta visão, o encargo de educador do acesso e do uso da informação. Por fim, a visão neoconservadora retroage a ideia inicial de neutralidade e imparcialidade do bibliotecário, que deve apenas satisfazer as necessidades informacionais apresentadas pelo usuário do acervo. A questão que chama a atenção é que no fluxo de satisfação das necessidades de informação é, por conseguinte, garantido o acesso ao sujeito que caracteriza o exercício de sua cidadania. Desta maneira, democratizar o acesso ao conhecimento é, de certa forma, efetivar a democracia na sociedade, razão que dá sentido a biblioteca contemporânea.

Unindo esses aspectos podemos entender que a biblioteca verdadeiramente pública é a que, em tempos de rupturas e tensões democráticas, assume o seu papel de dar palavra e ser da comunidade, como elemento constitutivo de libertação e consolidação do espaço democrático. Mas, para que tal ocorra, os profissionais da Biblioteconomia devem empoderar-se dessa visão crítica do fazer profissional, fator primordial para consolidação dos pilares democráticos e constitutivos de uma nova realidade inclusivista, jamais segregadora.

 

Referências

FLUSSER, Victor. Uma biblioteca verdadeiramente pública. R. Esc. Bibliotecon. UFMG, Belo Horizonte, v. 9, n. 2, p. 131-138, set. 1980.

MORAES, Marielle Barros de. Responsabilidade Social Bibliotecária (RSB): o que significa em tempos de rupturas democráticas? In: SPUDEIT, Daniela; MORAES, Marielle. Biblioteconomia social: epistemologia transgressora para o século XXI. São Paulo: ABECIN, 2018. p. 49-76.

 

* Licenciado em Pedagogia, estuda Biblioteconomia na Universidade Federal de Pernambuco. É empreendedor, atuando como MEI na área de Consultoria Educacional. E-mail: professormarcal.edu@gmail.com