A Biblioteconomia e Ciência da Informação do Leste Europeu no pós-Segunda Guerra

10/06/2015 11:30

Roberto Lopes dos Santos Junior *

 

Maio de 1945, após quatro anos de conflito, o exército da União Soviética ocupa Berlim, derrotando os nazistas e encerrando a segunda guerra mundial. Alemanha oriental (consolidada em 1949), Hungria, Polônia, Bulgária, Tchecoslováquia e Romênia, libertadas e ocupadas pelas tropas soviéticas, teriam seus governos adotando o sistema comunista como principal forma política, sendo “incorporados” ao que seria chamado de “bloco comunista”, vigente até 1989 (JUDT, 2008).

Em relação as bibliotecas e arquivos no leste europeu, algumas alternativas foram seguidas por esses países para a reconstrução dos seus acervos.

Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia e Polônia, tiveram, por um lado, que adotar políticas de centralização de seus acervos, o que muitas vezes significou a perda de poder de alguns bibliotecários para organismos políticos ligados ao partido comunista; por outro, esses países, no final dos anos 1950, além de terem recuperado  seus acervos, obtiveram também legislações que regulamentaram o funcionamento de suas bibliotecas e arquivos (RHODES, 2002; ENACHE, 2007; WOJICICKA, 1957; NIKOLOVA-HOUSTON ,2009).

Em relação a Alemanha oriental, depois de um considerável saque (ou “reparações”) feita pelas tropas soviéticas entre 1945-9, o país, a partir de 1952, reorganizaria as funções de suas bibliotecas regionais, além da construção de outras bibliotecas em diferentes partes do país nas décadas seguintes (SEEFELDT; SYRÉ, 2011).

Também no fim dos anos 1940, os países do leste europeu tiveram reconstruídos ou reformulados cursos de graduação relacionados a biblioteconomia.

O funcionamento e constituição dos cursos variou de país para país: na Romênia, os cursos em biblioteconomia (muitas vezes inseridos em programas ligados a arquivologia e paleografia), entre 1948-1960, tiveram uma existência instável, sendo interrompidos ocasionalmente, (ENACHE, 2007); na Polônia (instituído em 1951), Alemanha Oriental (1952) e Hungria (1949), os cursos transitavam, de forma delicada, entre visões ligadas ao marxismo-leninismo com teorias e ideias de autores norte-americanos e da Europa ocidental (RUCKL; RUCKL, 1993; DRZEWIECKI, ZYBERT, 1995; PÁLVÖLGYI, 2000); na Bulgária, a imposição de ideias socialistas nos cursos mostrou-se intensa e agressiva, onde os soviéticos tentaram excluir elementos ocidentais no país, o que mostrou-se parcialmente malsucedido (NIKOLOVA-HOUSTON, 2009); e na Tchecoslováquia, iniciativas dos organismos de informação, cursos de biblioteconomia, e a atuação de pesquisadores como, por exemplo, Augustin Merta (1914-2006), permitiram que o país pudesse oferecer trabalhos de considerável qualidade tanto para a biblioteconomia quanto para a Ciência da Informação (KOFNOVEC, 2004).       

Em relação ao campo de informação científica, um importante marco aconteceria com a criação, em junho de 1952, do Instituto Estatal de Informação Científico e Técnica, ou VINITI, espécie de “órgão central” ligado à Ciência da Informação na URSS.

Em seus primeiros anos, o instituto reorganizou organismos e publicações ligadas a informação cientifica no Leste Europeu. Chernyi (2005) afirma que o VINITI enviou dezenas de especialistas para essa região, e que vários profissionais desses países foram para a URSS se especializarem em cursos feitos pelo instituto.

Mikhailov, Chernyi e Gilyareviskyi ([1968] 1973), ao relatarem o campo em informação nos países do leste europeu no final dos anos 1960, afirmam que eles possuíam institutos que, indiretamente, lembravam o VINITI: na Alemanha oriental, o Instituto Central de Informação e Documentação (ZIID - instituído em 1963); na Polônia, o Instituto Central de Informação Científica, Técnica e Econômica (CIINTE - instituído em 1961); na Tchecoslováquia, o Centro de Informação Científica, Técnica e Econômica; na Bulgária, o Instituto Central em Informação Científica (instituída em 1962); e na Romênia, o Instituto Central de Documentação Técnica. Os autores não escondem, apesar dos elogios ao funcionamento dessas instituições, que as mesmas seguiam tarefas e procedimentos padronizados, centralizados e ditados em Moscou. 

Em 1969, esses institutos foram inseridos na Rede Internacional de Informação Científica (MSNTI), na qual a URSS tentou centralizar os serviços em informação no bloco comunista (SANTOS JUNIOR; PINHEIRO, 2010).

 

Referências

CHERNYI, A. I. Российская академия наук - Всероссийский институт научной и технической информации. Moscou: Nauka VINITI, 2005. Disponível em: <http://www.viniti.ru/download/russian/VINITI.50.Year.2005.pdf>.

DRZEWIECKI, M.; ZYBERT, B. Training for Librarianship at the Academic Level in Poland. Journal of Education for Library and Information Science, v.36, n.1, p.66-71, 1995.

ENACHE, I. Problems of Romanian Librarianship: Romanian Librarianship on the Verge of European Integration. World Libraries, v. 17, n. 1, 2007.

JUDT, Tony. Pós-guerra: uma história da Europa desde 1945. Rio de Janeiro: Objetiva, 2008.

KOFNOVEC, L. Ing. Augustin Merta, Csc., doyen eeské informaení vidy. Narodní Knihovna, v. 15, n.3, p. 172-174, 2004.

MIKHAILOV, A. I.; CHERNYI, A. I. & GILYAREVSKY, R.S. Fundamentos de la informatica. La Habana: IDICT/Academia de Ciencias de Cuba, Havana, 1973.

NIKOLOVA-HOUSTON, T. Bulgarian librarianship: Surviving change through international cooperation. Advances in Library Administration and Organization, v. 27, p. 49-71, 2009.

PÁLVÖLGYI, M. Library and information education and research in Hungary. Bibliothek, v. 24, n.1, p.53-62, 200.

RHODES, R. Libraries, Librianship and Library Education in the Czech Republic. Dissertação de mestrado (biblioteconomia) – Universidade de Carolina do Norte, Estados Unidos, 2002.

RUCKL, G.; RUCKL, S. German Democratic Republic (1949-1990). In: WEGERWORTH, R. (Org.) World Encyclopedia of Library and Information Services. Illinois: American Library Association, p. 318-321, 1993.

SEEFELDT, J.; SYRÉ, L. Portals to the Past and to the Future: libraries in Germany. Hildesheim: Georg Olms Verlag, 2011.

SANTOS JUNIOR, R. L.; PINHEIRO, L. V. R. A infra-estrutura em informação científica e em ciência da informação na antiga União Soviética (1917-1991). Encontros Bibli, v. 15, p. 24-51, 2010.

WOJCICKA, J. The Preservation of the State Records in Poland. The American Archivist, v. 20, n. 3, p. 195-199, 1957.

 

* Professor adjunto do curso de Arquivologia na Universidade Federal do Pará. Doutor em Ciência da Informação pelo convênio IBICT / UFRJ. Email: robertolopes@ufpa.br